Há alguns dias reparei numa menina que parece meio invisível. Por inteiro, na verdade. Ela está sempre pelos cantos, ela não tem muito o que falar, ela realmente não sabe pra onde ir, ela finge não estar alí, estando. Pus-me a pensar como deveria se sentir ela, sabendo que não marca a vida de ninguém, que não faz falta pra ninguém, que não tem nada pra contar com orgulho. De tanto pensar percebi que ela não era a única a viver assim e que o problema não estava só com ela.
Parei pra pensar no que sentia e no que era. Percebi que não sou. Conclui que também sou invisível. Fui me apagando as poucos, não sei se por querer, mas fui. Às vezes eu estou, mas observo de longe, prefiro não me pronunciar.
Ser invisível tem lá suas desvantagens, você acaba mesmo sumindo da vida das pessoas e eu não estou usando metáforas. Com o tempo você se torna completamente dispensável. Com o tempo você nem se vê mais no espelho. O estranho é que só percebi isso agora. As pessoas só percebem quando param pra se olhar no espelho... e aí elas nem existem mais. Então as pessoas vão correr atrás de algum pouquinho de espaço, algum pouquinho de cor pra tanto desenho vazado. Aí elas acham mais borrachas e acabam se conformando que as borrachas são necessárias. Depois elas se olham no espelho e nem se vêem mais.
Eu, particularmente, desisti de tentar ter uma cor porque viver apagadinho é mais cômodo. Eu não atrapalho o desenho da folha de ninguém. Com o tempo a minha página se amassa e nem eu, nem desenho vazado, nem folha, nem borracha existem mais.
Eu, particularmente, não sei com que propósito comecei a escrever esse texto que metricamente, contextualmente, poeticamente, filosoficamente não é bom, talvez eu ainda queira surtos de existência. Mesmo sabendo que, só por ter lido esse texto, algumas pessoas vão vir falar o quanto faço falta e o quanto sou "blá blá blá". Como elas podem dizer isso se elas nem me enxergam? Como a gente fala daquilo que não pode ver? Como a gente tropeça e não xinga uma pedra transparente?
Não sei bem, mas acho que agora entendo meu objeto de observação: ela deve pensar como eu. Mas ela nunca viria me falar porque ela não me vê. E ela está se apagando, não por querer, mas está. É a tendência?
Só quero dormir, descansar minha cabeça invisível. Que hoje passe como ontem, como antes de ontem. E se alguém se sentir meio invisível por terminar de ler isso, leia com apreço meu recado "te entendo, ninguém me entende também."

