Era por volta de dezoito horas e dezenove graus que caminhava Angélica, vinte anos, dia vinte e um ao encontro de Carol, vinte e dois, na rua vinte e quatro.
Para encurtar a história e também o suspense, conheceram-se através de um aplicativo de combinação de casais.
Até aqui, não há romance.
Angélica vestia um calça jeans preta, um tênis que mostrava um pouco de desleixo para com o encontro, camiseta branca e moletom amarelo claro. Seu cabelo na altura do queixo voava enquanto ela tentava cobrir o nariz da brisa gelada que entrava cada vez que as portas do trem abriam.
Abrem-se as portas do metrô, Angélica sai rapidamente e ergue o pulso para conferir a hora. Há alguns metros, Carol baixa o pulso após conferir a hora. Impaciente, batia o pé enquanto tirava do bolso o isqueiro e um cigarro.
Aproxima-se Lara, vinte, numa mão um cigarro apagado e na outra um presente. Compartilham isqueiro. As cinzas do cigarro de Carol logo vão ao chão. Lara continua a deliciar seu cigarro.
- Parece nervosa... mas arrumada. Vai encontrar alguém?
- Sim, sim. Estou esperando. E você, caixa de bombons... arrumada, vai agradar alguém?
Ambas riem e olham para o metro, mas somente Lara vai em direção a ele. Fim do encontro inesperado.
Angélica sempre sai de bicicleta, mas hoje pelo atraso resolveu tomar um trem. Atrasara-se pela indecisão de aceitar ou não o encontro, tendo em vista o fantasma de um ex amor que assombrava sua mente no sentido mais figurado possível, seria como dar o primeiro passo para a superação. Subiu então, o segundo degrau do metro. Ao subir o terceiro, esbarra-se com alguém. O alguém.
- Não esperava te encontrar assim, mas já que encontrei, trouxe esse chocolate porque sei que você só gosta desse. Sei um bocado de coisas sobre você e não posso deixar que isso se perca, acho que a gente precisa de novo uma da outra. Então, obrigada por esbarrar seu destino no meu.
- Eu te amo, Lara.
Aqui há romance, mas não é disso que o texto é feito.
Após carícias entre o casal e xingamento de quem passava por lá, tiveram a certeza que o misto de amor e surpresa proporcionado por aquele encontro, era a decisão que se tomava por si própria, sozinha.
Há alguns metros, sozinha estava Carol: saia jeans, tênis novos, camisa com mangas, cabelos longos que também voavam junto às cinzas do seu cigarro. O quinto, diga-se de passagem. Após algumas horas, concluiu: ela não vinha.
O porquê? Nunca entendeu. Mil hipóteses, desde uma abdução a uma hipotética volta com a ex-namorada surpreendente há poucos metros do local marcado. Como saber? Não sabendo. E assim Carol voltou pra casa.
Se a vida é cheia de incertezas, imagine a gente.
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