quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Conto d'um quarto semiescuro

Eu tentava explicar enquanto ele me apertava as coxas.
- Poupe-me, seu puto!  O que tens com cigarro, eu tenho com amor.
- Vício?
- Um desejo inapagável.
Acariciava minha virilha.
- Exponha seus argumentos, mulher.
- Amo porque preciso me apegar a alguma coisa, todo mundo precisa. Amo sem perder a fé...
- Hm.. - Murmurava ele enquanto, com uma só mão, acendia o cigarro preso nos lábios.
- Porque apesar das incansáveis vezes que tentei dizer "a partir de hoje, não amo mais ninguém", continuei amando. Um pouco escondido, depois vi que só interessa mesmo a mim.
- E onde quer chegar, mulher?
- Que não podes me chamar de fraca porque eu me rendo sempre!
- Para essa coisa de amor, estou blindado.
- Pois saiba que dizem o mesmo do cigarro até provarem. E até julgam louco aceitar tal vício. Não vejo algo mais parecido: as sequelas, a caótica sensação de paz interior... percebe que nunca se termina um cigarro? Um amor também fica sempre por aí. Às vezes não volta pro físico, mas amor mesmo não tem fim.
- Tu não me convences dessas tuas ideias.
Roubei o cigarro da mão e a outra que me acariciava levemente logo me penetrou com vontade.
- E se te negassem todos os cigarros da Terra?
- Eu seco.
- E se o mundo é cada um de nós, o que pensa que acontece se tirar o amor daqui.
Passei a mão pelo coração e em seguida apertei meu peito vorazmente, deixando escapar o mamilo pelos dedos.
- Ele seca. - rendeu-se.
- Entramos num consenso, amor?
- Sim, mulher. Agora deixe-me fum...
Meus olhos de repreensão o perseguiram naquele instante.
- Amar você.
O cigarro deixado de lado apagou-se sozinho enquanto corpos a sua direita se fundiam como um só.

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