Hoje eu lembrei de você. Eu vim pra São Paulo, não pra te esquecer, mas isso deveria ter sido uma consequência. Confesso que ainda não foi. E hoje eu lembrei de você. Eu chorei, mas disse que era por causa das cebolas. Sim, eu chorei cortando cebolas porque você sempre me cortava as cebolas. Sempre com os quadrados de cebola mais perfeitos que alguém pode refolgar um arroz pra comer com carne comprada no super mercado assistindo Simpsons no sofá da sala. A verdade é que não sei se chorei por você ou pelas cebolas.
Acho que choro pela falta de esperança. Agoniante essa coisa. Como é que a gente sustenta a gente desse jeito? Eu a matei com tanto gosto e saí por aí exibindo um brasão por isso, mas a verdade é que dói.
Eu vou ser feliz um dia, eu sei que eu vou, mas isso nunca vai mudar o fato de que eu amava cada particularidade sua.
Eu amava o jeito que você sorria, eu amava o calor do seu corpo quando eu acordava. Usar suas roupas quando acordava de noite pra ir ao banheiro. Os ácaros da sua cama. Seus amigos. Seu cheiro. Seu cabelo. Seus sinais de bananada. Seus filmes. Seus livros. Seus gostos. Sua casa. Seus clichês. Sua forma de se expressar. Sua farda do trabalho. Sua voz. Suas caretas. Suas brincadeiras. Seus trocadilhos. Sua confiança. A confiança que você dava pra mim. As paredes do seu quarto com minha grafia e meus desenhos. Os presentes surpresa que você me dava. As segundas. As terças. As quartas. As quintas. As sextas. Os sábados. Os domingos. Os presentes que eu te dava. Nossos amigos. Nossas conquistas. Nossos alunos. Nosso trabalho. Nossos lugares. Nossos assuntos. Nossas brigas. Nossos planos. Nossa hamster. Nossas voltas na praça do ferreira depois do almoço. Nossas noites no espetinho. Nossos dias de praia. Nossos dia de filme e dengo. Nossos dias de festa. Nossas incompatibilidades, sim, até nossas incompatibilidades. Nossos futuros filhos. Nossa futura casa. Nós.
Mas principalmente o jeito como você cortava cebolas do outro lado da cozinha, enquanto dizia "eu sou incrível. Nessa parte você não se mete. Na nossa casa você vai cozinhar nua, é linda demais pra ficar com roupa e eu não ver. Aliás, vai fazer tudo que quiser fazer em casa, sem roupa. Até nossos filhos chegarem. Quase tudo, mas as cebolas, deixa que eu corto."
Malditas cebolas que fazem a gente chorar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário