domingo, 21 de dezembro de 2014

Comodismo para uma alma nômade.

Mandaram-me sonhar, pois não, cá estou.
Tenho querido meu lar, Com paredes lilás, verde limão, azul e laranja. Uma cozinha com piso xadrez preto e branco e paredes branquinhas. Uma janela enorme que me permita ver o sol e senti-lo pela manhã. Cortina de bolinhas, assim como o tapete da sala no qual deitarei quando chegar cansada do trabalho.
Uma cama de pallets coloridos e um colchão que comprei no black friday, surrado de sexo, preferencialmente. Uma colcha de cama verde, ou laranja.. ou vermelha, ou uma cor muito forte e travesseiros rosa. Lençóis de estrelinhas.
Móbiles de estrelinhas amarelas com glíter pendurados no teto, ligeiramente pintados com patas de porco nada sugestivas. Uma moldura na porta igual a do apartamento de Mônica (friends) com uma maçaneta igual a de Alice no país das Maravilhas.
Quero uma geladeira cheia de chocolate e comidinhas acumuladas pra levar a marmita na semana. Um armário com canecas marcadas para chá, café, leite e cheio de comidas pra preparar - bolo de caixinha, chá (de todos os tipos como Ramona Flowers), café solúvel, leite em pó, leite condensado, atum, macarrão, arroz, curry, sal, açúcar. Copos de plástico colorido, nada de vidro, arg. Uma pia com louça sempre lavadinha.
Uma máquina de fazer arroz, um microondas (para os momentos de agonia), uma sanduicheira, um fogão com quatro bocas e um forno pra eu preparar bolo e receber amigos domingo a tarde.
Quero um pano de prato pra cada dia da semana e desinfetante com cheiro sutil. Adesivos de patinho no banheiro, que terá sempre um sabonete reserva, uma toalha reserva, um kit de sobrevivência para os amigos reserva.
Uma estante cheia de livros e alguns filmes organizados por ordem alfabética, ao lado do meu notebook e da caixinha de cobrirá o que os vizinhos não precisam ouvir. Ou que me fará companhia em dias de faxina. Também meus pincéis, tintas, giz de cera, tesoura, cola e papéis.
Uma parede repleta de fotos 10x15 preto e branca dos amigos e momentos preferidos, seguido de um quadro negro que terá sempre alguma anotação de algo que eu preciso lembrar de comprar ou fazer, cataventos coloridos e
um apanhador de sonhos para filtrar as energias.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Cebolas

Hoje eu lembrei de você. Eu vim pra São Paulo, não pra te esquecer, mas isso deveria ter sido uma consequência. Confesso que ainda não foi. E hoje eu lembrei de você. Eu chorei, mas disse que era por causa das cebolas. Sim, eu chorei cortando cebolas porque você sempre me cortava as cebolas. Sempre com os quadrados de cebola mais perfeitos que alguém pode refolgar um arroz pra comer com carne comprada no super mercado assistindo Simpsons no sofá da sala. A verdade é que não sei se chorei por você ou pelas cebolas.
Acho que choro pela falta de esperança. Agoniante essa coisa. Como é que a gente sustenta a gente desse jeito? Eu a matei com tanto gosto e saí por aí exibindo um brasão por isso, mas a verdade é que dói.
Eu vou ser feliz um dia, eu sei que eu vou, mas isso nunca vai mudar o fato de que eu amava cada particularidade sua.
Eu amava o jeito que você sorria, eu amava o calor do seu corpo quando eu acordava. Usar suas roupas quando acordava de noite pra ir ao banheiro. Os ácaros da sua cama. Seus amigos. Seu cheiro. Seu cabelo. Seus sinais de bananada. Seus filmes. Seus livros. Seus gostos. Sua casa. Seus clichês. Sua forma de se expressar. Sua farda do trabalho. Sua voz. Suas caretas. Suas brincadeiras. Seus trocadilhos. Sua confiança. A confiança que você dava pra mim. As paredes do seu quarto com minha grafia e meus desenhos. Os presentes surpresa que você me dava. As segundas. As terças. As quartas. As quintas. As sextas. Os sábados. Os domingos. Os presentes que eu te dava. Nossos amigos. Nossas conquistas. Nossos alunos. Nosso trabalho. Nossos lugares. Nossos assuntos. Nossas brigas. Nossos planos. Nossa hamster. Nossas voltas na praça do ferreira depois do almoço. Nossas noites no espetinho. Nossos dias de praia. Nossos dia de filme e dengo. Nossos dias de festa. Nossas incompatibilidades, sim, até nossas incompatibilidades. Nossos futuros filhos. Nossa futura casa. Nós.
Mas principalmente o jeito como você cortava cebolas do outro lado da cozinha, enquanto dizia "eu sou incrível. Nessa parte você não se mete. Na nossa casa você vai cozinhar nua, é linda demais pra ficar com roupa e eu não ver. Aliás, vai fazer tudo que quiser fazer em casa, sem roupa. Até nossos filhos chegarem. Quase tudo, mas as cebolas, deixa que eu corto."
Malditas cebolas que fazem a gente chorar.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Está dentro do que constitui: o fim.

O café esfria
A luz se apaga
A bateria descarrega
O coração para
A folha cai
A mosca morre
O choro passa
O pneu seca
O ferro oxida
O amor acaba
A pipoca antes do filme também
O papel morfa
A comida estraga
O gelo derrete
As poças de água de chuva evaporam
A ponte quebra
Basta ser
E nem precisa estar no pretérito perfeito.